Um documento obtido com exclusividade pelo Jornal da RECORD revela que o governo de Israel alertou oficialmente o Brasil sobre uma conexão financeira entre uma instituição de pagamentos digitais associada ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e o grupo libanês Hezbollah, classificado como organização terrorista por vários países.
O relatório, emitido pelo Ministério da Defesa de Israel em três idiomas (inglês, árabe e português), foi enviado a autoridades financeiras globais em fevereiro de 2024 e aponta transações suspeitas que totalizam quase R$ 500 milhões.
De acordo com investigações do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), a facção criminosa brasileira mantinha recursos em uma carteira digital também utilizada pelo Hezbollah para movimentações internacionais. O documento israelense destaca a apreensão de contas digitais vinculadas ao PCC como medida para “prevenir o financiamento de atividades terroristas”.
Detalhes da operação
Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), citado no alerta, reforçou a ligação entre a fintech 2Go Bank — suspeita de atuar como intermediária — e o grupo libanês. As análises identificaram transações realizadas entre 2022 e 2023 para países do Oriente Médio, África e Europa, com valores convertidos em criptomoedas e dólares.
O delegado Vinícius Gritzbach, responsável por parte das investigações no MP-SP, detalhou à reportagem que a fintech operava com contas laranjas e laranjas digitais para ocultar a origem dos recursos. — O PCC usa tecnologia sofisticada para lavar dinheiro do tráfico e, agora, há indícios de que parte desses recursos subsidia grupos estrangeiros — afirmou.
Relações internacionais do PCC
A desembargadora Ivana Davi, que analisa processos relacionados ao caso, ressaltou a complexidade das operações. — Estamos diante de uma rede que ultrapassa fronteiras, com vínculos a organizações que ameaçam a segurança global — declarou. O MP-SP investiga se o esquema incluiu corrupção de funcionários de instituições financeiras para facilitar a abertura de contas fictícias.
O alerta israelense menciona ainda que o Hezbollah teria usado a infraestrutura do PCC para lavar recursos de tráfico de drogas e extorsão na América do Sul, convertendo-os em armas e equipamentos para ataques no Oriente Médio.
Silêncio da defesa
Tentativas de contato com os advogados responsáveis pela defesa do 2Go Bank não foram respondidas até a publicação desta reportagem. A instituição, com sede em São Paulo, teve suas operações suspensas pela Justiça em março de 2024, após pedido do MP-SP.
Contexto e próximos passos
O caso expõe desafios no combate ao crime organizado transnacional, especialmente com o uso de tecnologias financeiras. Autoridades brasileiras e israelenses discutem cooperação para rastrear fluxos de dinheiro e bloquear contas suspeitas.
Enquanto isso, o PCC segue sob investigação por supostos laços com outras organizações, incluindo cartéis mexicanos e grupos armados da África.
A Polícia Federal deve concluir até maio um relatório detalhado sobre as operações da fintech. Se confirmadas as conexões, o Brasil poderá incluir o caso em agendas de segurança internacional, como a Interpol e o GAFI (Grupo de Ação Financeira).